Revista Cult - Edição 140
Últimas Atualizações
Domingo, 29 de novembro de 2009   |    RSS
 
Trechos dos filmes do cineasta Jean Vigo
Em A Música Desperta o Tempo, Daniel Barenboim fala sobre como a música pode ser um espelho para a vida, ou melhor, para a sociedade
Nome:
E-mail:

RSS

 
 
Ligações Improváveis
[íntegra da entrevista publicada na edição 140]
 
Jovem expoente da literatura francesa, Emmanuel Tugny fala de sua trajetória, que mistura diplomacia, música e literatura
   
Gunter Axt
 
Emmanuel Tugny, pseudônimo artístico do filósofo e diplomata Ronan Prigent, filho do crítico literário e poeta Christian Prigent, é músico e romancista nascido na França, em 1968. Considerado um dos jovens expoentes da literatura de vanguarda na França, publicou seu primeiro livro, Les Impatiences, em 1993. Seguiram-se vários romances (Rheu, Les Trente, Mademoiselle de Biche, La Vie Scolaire, Byzance, Corbière le Crevant). Tugny também é músico e compositor, e formou o grupo de rock Molypop em 2006, na França. Seu primeiro álbum solo, inteiramente gravado no Brasil, onde reside atualmente, em Porto Alegre, foi lançado na Europa no último dia 18 de setembro. Seu primeiro livro publicado no Brasil, Morrer como Corbière, também foi lançado em setembro, pela Editora Sulina. O público brasileiro já teve contato com Tugny pela Cult, em cujas páginas escreveu entre 1999 e 2001, durante período de residência em São Paulo. Nesta entrevista, Tugny fala de seu processo criativo, de sua obra, de família, da Bretanha, do Brasil e da esquerda francesa.
 
 

O escritor e músico Emmanuel Tugny, pseudônimo do filósofo e diplomata Ronan Prigent
 
 
CULT - Por que construir um pseudônimo, uma personalidade artística? Tradição francesa, esforço para diferenciar o filósofo-diplomata do músico-romancista, ou diálogo familiar?
Emmanuel Tugny - É uma homenagem às duas mulheres que me elevaram, me promoveram. Emmanuel é o nome inicialmente escolhido pela minha mãe no momento do meu nascimento e ele liga minha atividade de escritor à minha fé. Tugny é o sobrenome de minha avó. Na minha visão, a escrita é uma determinação original feminina - eu a reporto à maternidade. Meu nome de autor testemunha esta remissão.   
 
CULT - Interessante você relacionar a escrita a uma determinação feminina, ligada à maternidade. Tem a ver com o berço corpóreo, com a fonte da linguagem e da cultura? Como o gênero feminino emerge em sua obra? Você acha que o feminino na sua literatura pode ser visto como uma força de distorção para o prisma masculino, um lugar onde se decide a linguagem e a possibilidade do poético?
Tugny - Sim, com certeza. A feminilidade é para mim o lugar fundante da intervenção sobre o Logos, o lugar da "reprise", no senso conferido por Kierkegaard, o lugar de retorno às fontes profundas dos mundos a fazer. A feminilidade determina minha escritura como sua destinatária, como força sem desequilíbrio dos mundos que me inquietam. Ela é a textura de minha obra, sua "ordem das coisas". Você tem razão: a feminilidade é em minha percepção "senso inventado", "senso reencontrado", "poesia", ainda que para mim a poética seja o conjunto e a mistura dos poemas.
 
CULT - Filosofia, literatura, música, diplomacia e gestão cultural dialogam entre si na sua trajetória? Como? Ou você as enxerga como disciplinas paralelas?
Tugny - O pianista Glenn Gould dizia que existiam dois tipos de músicos, aqueles que se concentram nos instrumentos e aqueles que se concentram sobre o produto musical: eu estou entre aqueles para quem o instrumento ou o campo de criação importam pouco face à necessidade de produzir. Eu produzo de sorte a ver em todo espaço de intervenção um lugar a investir, a partir de um objeto gerado. É o investimento de um espaço cuja vacuidade cativa é o que importa, mas não o próprio espaço em si. Por tudo há matéria a fazer e a matéria do fazer me é um tanto indiferente.
 
CULT - Na França, cultura e diplomacia andam próximas, conceito e prática quase desconhecidos pela diplomacia brasileira. Como é o trabalho de um diplomata especializado em gestão cultural?
Tugny
- Eu não tenho certeza se na França cultura e diplomacia são consubstanciais..., ou, mais exatamente, eu não sei se a cultura está mais em evidência na diplomacia francesa do que em todos os outros domínios franceses. A França é um país cujo brilho e projeção estão fundados há muito tempo sobre o que chamamos, sem grande precaução, de usos lexicais, de "cultura" (grosso modo, eu nomeio aqui cultura ao conjunto de obras do espírito no domínio das artes e das letras). A diplomacia francesa carrega os traços desta realidade, assim como a cozinha, a arte da guerra, a retórica, a educação, a sexualidade. Ser um diplomata francês é sem dúvida ter em mente esta herança. Não somos franceses fora da França sem estarmos associados a esta imagem patrimonial da França império da cultura. Penoso, sim, para os diplomatas franceses incultos; e feliz para os cultivados: eles se dirigem aos seus interlocutores com fineza. Fique bem entendido, a questão da natureza da cultura é um outro assunto: lá reside nosso "Polemos". Mas insisto, a diplomacia francesa é tão cultural como tudo o é na França, nem mais, nem menos.
 
CULT - Suas canções parecem ter um clima hippie sem capota, parecendo dialogar ora com John Lennon, ora com Johnny Cash, ou com Serge Gainsbourg. Quais são suas influências, como você dialoga com os anos 1960?
Tugny
- Sim, tudo o que escrevo em música colhe sua fonte da era pop e jazz (o álbum que estou gravando no momento se abre bastante ao jazz) dos anos 1960 e 70. Foi uma era de generosidade coletiva, de curiosidade, de abertura máxima, de abandono às esperanças e de fé. De qualidade de interpretação e de produção também. Eu pertenço a esse tempo musical, ao qual eu espero associar um toque mais sombrio, que se remete à violência das relações sociais vividas na minha adolescência suburbana.
  
CULT - O que é o projeto Molypop? O que muda entre a experiência coletiva e o trabalho solo?
Tugny -
Pouca coisa, na realidade, pois os músicos são os mesmos. No seio do Molypop, que é um grupo de rock, as decisões são progressivamente coletivas. Quando eu trabalho só, são também coletivas, mas eu tenho a palavra final.
 
CULT - O que é sideração?
Tugny -
"Sidération!" é um ensaio filosófico consagrado à noção de sideração.
 
CULT -  Você acha possível explicar a ideia desse livro (Sidération!) e explicar a síntese de seu entendimento da noção de sideração? Estou enganado, ou trata-se de um tema bastante específico na filosofia, sobre o qual pouco se escreveu?
Tugny -
Mais uma vez você tem razão. Que eu conheça, nada foi escrito e publicado sobre esta noção. Farei uma síntese, um tanto imprópria, pois se eu escrevi um livro inteiro sobre esta noção, é nele, não numa frase, onde está o mérito: nomeio "sideração" um fato de consciência no qual a consciência prova o pertencenimento radical de "seus corpos" ao ser do mundo. E eu constato que, no fundo, só escrevi sobre isto na minha vida...
 
CULT - Você escreve filosofia com forma literária, numa prosa poética?
Tugny -
Eu escrevo. Ignoro o que é "prosa poética". Para mim, toda poesia está dentro dos poemas. Não me coloco a questão da forma e não creio na distinção entre fundo e forma. Quando escrevo filosofia, estou em busca de uma língua pensada, de uma língua plena de pensamento, metáfora de um movimento do pensamento. Quando escrevo um romance, estou em busca de uma língua visão, de uma língua plena de visão, metáfora de um encadeamento de visões. Eu escrevo para fazer movimento: a cada gênero praticado corresponde uma ipseidade de movimento.
Na literatura, lidamos com o mundo ou o cosmos; na filosofia, com o logos ou com o sentido. A escrita é imagem costurada na direção do objeto do fazer.
 
CULT - A Bretanha, esta região de remota tradição mística, de irredentismo corso, de espírito aventureiro associado ao mar, tem sido há décadas um celeiro de agentes modernizadores da linguagem e do signo, de Tristan Corbière a Yelle, passando por Allan-Robbe Grillet, e muitos outros. Você acha que há uma especificidade cultural bretã? Como a Bretanha chega a sua obra?
Tugny -
Ela aparece com freqüência. A Bretanha possui uma língua. Esta língua fez o aprendizado de sua torção por uma outra língua; isto apreende sem dúvida a criação da língua. A mais, há na Bretanha, me parece, uma brutalidade terminal, escatológica, da natureza que parece convocar a língua a dizer o fato, a libertar da abstração gramatical válida para toda vida e para nenhuma. Falar a partir da Bretanha é em alguma medida para mim apropriar-se de uma gramática dos fins, uma língua da urgência a dizer ainda, a gramática e a língua pertencentes a quem vai morrer.
 
CULT - E o Brasil? Você morou anos entre São Paulo e Porto Alegre. Como esta experiência vazou para a sua obra, considerando a filosofia, a literatura e a música? Em Sideration! há uma bela imagem que remete ao lago e ao céu no Sul do Brasil.
Tugny
- Quando eu deixar o Brasil, pela segunda vez, terei vivido neste país por oito anos. Não sei exatamente de que maneira o Brasil entrou nos meus livros. Direi que escrevi a maior parte dos meus livros importantes no Brasil. A urgência de escrever é para mim brasileira, sem dúvida.
 
CULT - Como você lida com a dimensão psicológica em seus romances? Em que medida você explora a ideia de recesso dos personagens?
Tugny -
A literatura é arte e é mundo... Há obras alienação de fluxo de consciência e há os mundos onde fluem as consciências, e não se trata do mesmo sujeito. Meus personagens são em geral formas mudas e rigorosamente pictóricas, cujos corpos se acham desajeitados face à desconfortável necessidade da palavra. São elementos do mundo para quem a necessidade da palavra é um sofrimento patente, já que ela implica num pacto de ruptura com o silêncio do mundo. Meus personagens são do mundo, sua palavra os convoca a se extrair dele e eles sofrem. Quanto à sua psique, a literatura é feita de vida de linguagem e de linguagem; um personagem não tem psique porque a psique supõe ser suportada por uma physis, e nos falamos de literatura.
 
CULT - Kafka bradava: "chega de psicologia!". Mas Thomas Mann disse que ele escreveu o mesmo livro a vida inteira, sua autobiografia. Se o fez, foi recorrendo à sátira niilista do poder tentacular, castrador e ciclotímico, e sem jamais falar de si mesmo. O que Kafka e essa aporia representam para você?
Tugny
- Eu escrevo sobre o pertencenimento ao mundo. Não distingo o eu do mundo. Meus livros são do mundo, eu estou no mundo. Pensar é se extrair nomeando, eu recuso este imperativo: minha aporia é a necessidade de não ser do mundo; meu assintótico, é o ser do mundo. Há disso em Kafka, mas, sobretudo, em Rousseau, Spinoza, La Fontaine, Montaigne - meus mestres. Não me ressinto da opressão de qualquer poder; pertenço, já que sou do mundo. Thomas Mann me cai das mãos, isso discursa muito, pensa muito, não enxerga o suficiente.
 
CULT - Por que Tristan Corbière? A Bretanha, o mar (junto ao qual você mora, em Saint Malo ), o protótipo do poeta maldito, mestre no estilo coloquial irônico, com pontuação complexa, precursor do simbolismo - a matriz de quem pensa a poesia como extensão da música -, filho de um famoso escritor e que adotou um pseudônimo. Há aí um encontro com sua própria identidade?
Tugny -
Não, minha mãe escreveu uma magnífica memória sobre Corbière em 1970 e eu desejava lhe render uma homenagem há muito tempo.
E, além disso, eu queria escrever um livro sobre matéria e morte, depois de Choro (publicado em 2004 pela editora Le Mot et le reste). Eu não chegava aí sem uma ilustração. Corbière me apareceu como uma alegoria deste sujeito e eu o adotei como tal. Raros são os escritores que não são filhos de escritores.
Este livro é sobre a relação da escrita com a matéria e a morte. Corbière é um dos raros poetas que eu amo e é o "poeta de minha mãe". Mas juro que escreverei sobre meu pai um livro inteiro. Eu já o fiz em Rheu, e voltarei ao tema, pois isto não me coloca dificuldades maiores.
Mas Morrer como Corbière é um livro onde Corbière não é exatamente um herói, muito menos, evidentemente, que sua relação com o pai.
 
CULT - "Morrer com Corbière" vai além da biografia, ao mesclar o estilo do autor e do biografado, rompendo com a temporalidade de forma a envolver o leitor na sensação da morte, do início ao fim. É um romance sobre a morte, assim como o documentário de Wim Wenders "O filme de Nick" o é?
Tugny -
Certamente. Mas sobre a morte como sideração, condição de amor, como ascensão, epifania mônica, de amor supremo. 
 
CULT - "Morrer com Corbière" recebeu o "Prix Flore B", concedido pela blogosfera - o lado B do elegante Café Flore do Boulevard Saint Germain. Você mantém interlocução constante com os internautas pelo Facebook e pelo My Space. Como a sua literatura lida com estas ferramentas, que nos empurram para uma fragmentação progressiva do discurso?
Tugny -
Eu adoro o MySpace e o Facebook porque são espaços onde se oferecem presentes às pessoas: fragmentos aperitivos, de livros, de telas, de músicas amadas. Eu trato estes espaços virtuais como mesas sobre as quais servimos os melhores vinhos aos hóspedes. Seguidamente, eu escrevo assim, para atender a uma demanda de um livro que deseja ser, de uma mulher que quer um livro.
 
CULT - Você trocou recentemente o tradicional PS pelo radical Partido Anti-Capitalista. Como você avaliada o atual momento vivido pela esquerda francesa?
Tugny -
Trata-se para a esquerda francesa, antes de tudo, de repensar o mundo desde a ideia que ele não existe fora de sua construção pelo pensamento político. A direita mundial ganhou uma partida: ela produziu a crença na realidade irrecusável da realidade, na redução do álamo da utopia ao campo do presente. É a dignidade da esquerda pensar a utopia a partir de uma consciência de unidade do mundo e dos homens e de pensá-la fora dos relativismos sazonais do calendário político.
 
CULT - Você leu, ou costuma ler, a obra de seu pai, o poeta e crítico literário Christian Prigent? Você identifica alguma interlocução entre o trabalho de vocês? Ele, por exemplo, interroga-se sobre autores considerados difíceis e um tanto subversivos, concentrando-se especialmente nas vanguardas literárias do fim do século 20 na França.  Além disso, embora a obra de vocês seja muito diversa, creio existirem certos paralelismos, como o tratamento dado à relação entre criação poético-literária e o feminino.
Tugny
- Li muito pouco a obra do meu pai, mas isso não significa muito: eu li muito poucas obras contemporâneas e isto não se aplica exclusivamente à literatura.
Deve haver pontos de contato entre nós, mas eu creio que quatro coisas nos diferenciam fundamentalmente: ele é um poeta e acredita na ordem, nas coerências, na unidade auto-gerada, ele é um pós-estruturalista e acredita nas formas como redentoras de uma "depressão do mundo" e esquiva a representação, ele é um escritor dos contornos familiais, é um crítico e um preceptor.
Eu, não sou poeta, mas romancista e filósofo, não acredito em outra coisa que nas descontinuidades, na incoerência dialética, sou um cristão panteísta que não crê que para o mundo e para a representação há um sentido a ser encontrado. Eu não escrevo sobre outra coisa senão aquilo que está muito distante da minha biografia. Eu não farei jamais crítica literária, tendo horror de produzir conteúdo literário fora das minhas ficções.
Quanto ao feminino, é o ar, o bourbon, o "deus escondido" goldmanianno dos meus livros, embora seja seu sujeito apenas raramente. E quando o é, é um sujeito de amor terno, jamais o objeto de uma revanche. Mas a mãe ser a causa de que o Logos seja o sujeito do escrever, é uma evidência para todos os escritores, meu pai, eu, os próximos, os estranhos.
 

 
 
COMENTÁRIOS (0) ENVIE SEU COMENTÁRIO

Nenhum comentário enviado.
 

 
Edição 140
Confira nesta edição
     
cultura em movimento
Viva Villa! - Espetáculo sobre a vida e a obra de Ana Cristina Cesar - Bienal do Livro de Pernambuco - 33ª Mostra Internacional  de Cinema de São Paulo - Outras Notas Musicais
       
resenha - literatura
Em seu segundo romance, Paulo Rodrigues desestabiliza as bases do realismo
             
resenha - cinema
Nova edição do livro de Paulo Emílio Salles Gomes discute a obra do mestre do cinema poético Jean Vigo
         
Música Clássica
Norman Lebrecht: Num piscar de olhos na história da cultura, a Cidade dos Anjos abrigou o futuro da música erudita
        
Música Popular
Pedro Alexandre Sanches: Com nomes como Céu, Tiê, Ana Cañas, Maria Gadú, o ano de 2009 se notabiliza por uma avalanche de mulheres compositoras
        
homenagem - Bergson
Entrevista com Frédéric Worms, considerado o maior especialista na obra de Bergson
           
resenha - filosofia
Ensaios do filósofo italiano Giorgio Agamben apresentam as noções de dispositivo, de amizade e de contemporâneo
        
filosofia
Marcia Tiburi: Viver a morte dos outros é o que nos resta quando o caráter macabro do capitalismo se revela entre nós
     
dossiê - Depressão
         
Epidemia do desencanto
por Wilker Sousa
         
Custos e história de uma doença
por Táki Cordás
      
Do patológico ao humano universal
por Decio Gurfinkel
           
O urso-polar e a baleia
por Christian Ingo Lenz Dunker
          
   
oficina literária